Dívidas roladas por empresas pós-2008 voltam a preocupar

Segundo o banco, essas empresas não conseguiram fortalecer sua saúde financeira em 2010, “apesar das circunstâncias econômicas mais favoráveis”.

Por Aline Lima

No relatório de resultado do BicBanco do segundo trimestre de 2011, um alerta sobre os possíveis desdobramentos da crise da zona do euro apontava para um movimento que, agora, começa a aparecer no radar de outras instituições financeiras: empresas que em 2008 e 2009 tiveram de fazer rolagem de dívida voltam a apresentar dificuldades para pagar juro e principal.

Ao justificar o volume expressivo de provisões para devedores feitas ente abril e junho, o BicBanco, especializado na oferta de crédito a médias empresas, informava ter rebaixado as classificações de risco de um grupo de clientes que tinham em comum apenas o fato de terem contraído suas dívidas antes da crise de 2008. Segundo o banco, essas empresas não conseguiram fortalecer sua saúde financeira em 2010, “apesar das circunstâncias econômicas mais favoráveis”.

Em muitas renegociações fechadas em 2009, os bancos concederam carência de dois anos às companhias devedoras, prazo esse que venceu agora ou está prestes a expirar.

Em um banco estrangeiro, já chega a 5% da carteira corporativa (excluídas aí as multinacionais) o volume de empréstimos renegociados pós-2008 que voltam a preocupar, conta o diretor da área. Como os atrasos são inferiores a três meses, ainda não estão refletidos no índice de inadimplência. “Algumas dessas empresas estão à mesa de negociação com os bancos para fazerem um novo reescalonamento das dívidas”, diz o executivo. “Mas não é desprezível o percentual daquelas que alongaram lá atrás suas obrigações e agora já têm dificuldades de cumprir os acordos”, ressalva.

Outro diretor de um importante banco de atacado nacional dispõe do que chama de “watch list”, uma lista com alguns casos que ele diz acompanhar de perto e para os quais vem administrando “medidas profiláticas”. “Já procuro conversar com o cliente e outros bancos para alongar um pouco o passivo da empresa. Pode ser por meio de uma emissão de debêntures a serem adquiridas pelos próprios credores, por exemplo”, afirma. “Buscamos também soluções de mercado, como a capitalização por um fundo de private equity, venda ou fusão.”

A recente valorização do dólar pode ter contribuído para pressionar os custos dos financiamentos em moeda estrangeira, porém explica pouco o fenômeno. “Os bancos, de forma geral, se preocuparam bastante com a estrutura de proteção contra a variação cambial nas renegociações de 2008 e 2009, em função dos problemas envolvendo derivativos”, observa o diretor do banco estrangeiro.

“Não sei dizer qual seria a causa”, desabafa o executivo de um banco de médio porte. O que mais preocupa o setor é o fato de as empresas que hoje enfrentam dificuldade para honrar suas obrigações em dia serem as mesmas que, três anos atrás, sofreram aperto durante a crise financeira. “O ano de 2010 foi bom, mas é pouco tempo para uma empresa que precisa colocar as finanças em ordem, ainda mais em meio a este novo capítulo da crise financeira”, explica o presidente de uma pequena instituição financeira.

O recrudescimento do cenário de crédito se reflete em uma postura mais cautelosa assumida por boa parte dos bancos. O BicBanco pôs o pé no freio e reportou, no dia 14, queda de 7,9% no saldo da carteira de crédito do terceiro trimestre ante o segundo trimestre, para R$ 12,4 bilhões. As provisões para créditos de liquidação duvidosa continuaram subindo – 22,5% no terceiro trimestre contra o segundo, para R$ 167,2 milhões. O esforço de provisão ganhou, inclusive, o complemento de uma receita de crédito tributário de R$ 20,1 milhões.

Nos grandes bancos, as provisões para devedores também vêm apresentando crescimento expressivo – embora os números incluam suas portentosas operações de varejo. A evolução das provisões no Bradesco foi de 9,9% no terceiro trimestre do ano em relação ao anterior, superior à expansão da carteira de crédito, de 3,8%. No Itaú Unibanco, as provisões aumentaram menos no mesmo período, 4% – mas já haviam subido 7,9% no segundo trimestre ante o primeiro.

Apesar da prudência, o panorama ainda está longe daquele observado na crise de 2008. Se por um lado a reincidência das empresas devedoras preocupa o setor bancário, por outro lado, não deixa de ser um conforto para os agentes o fato de a contaminação estar, por enquanto, restrita a um grupo de companhias que já se encontrava em situação delicada no passado recente.

“São casos particulares”, minimiza Marcelo Malanga, diretor de recuperação de crédito do Santander. “Não tivemos nem piora nem melhora nos índices de liquidez de renegociação da nossa carteira nos últimos três anos”, acrescenta.

O desenrolar da crise europeia vai ajudar a determinar o rumo da inadimplência das pessoas jurídicas no sistema bancário brasileiro. O raciocínio predominante no mercado financeiro é de que, se países periféricos do bloco econômico romperem com a zona do euro, a crise pode alcançar proporções similares ou até piores que a de 2008. Se a debacle for bem coordenada, o pior pode ser o agora.

O ritmo mais lento da atividade econômica, no entanto, começa a preocupar. O aumento dos custos de matéria prima e de mão-de-obra são algumas das reclamações mais frequentes relatadas por empresários às instituições financeiras. A concorrência com a China, que deverá redirecionar boa parte da produção antes destinada à Europa, é outro fantasma a rondar a indústria nacional. “A situação preocupa mais pelo que pode vir a acontecer do que propriamente pelo que está acontecendo”, observa o diretor do banco nacional de atacado. E é justamente aí que mora o perigo.

Fonte: Valor Econômico

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