Em falência, Buettner mantém operação

Por Vanessa Jurgenfeld | De Florianópolis

O ex-presidente da Buettner e ex-membro do Conselho de Administração, João Henrique Marchewsky, tem esperanças de reverter o processo de falência, decretado em 28 de fevereiro, e cuja liminar, que pedia sua suspensão, foi negada na semana passada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC).

“Acreditamos que vamos reverter isso quando houver o julgamento do mérito”, disse Marchewsky, que é acionista minoritário da empresa e foi, nos últimos anos, o seu principal administrador.

O mérito do Agravo de Instrumento será julgado por uma Câmara de Direito Comercial, do próprio TJ-SC, dentro de duas a três semanas, de acordo com informações do TJ-SC.

“A crise não é só da Buettner. Não se trata de um caso único que teve problemas. A indústria têxtil inteira vem sofrendo”, justificou Marchewsky, referindo-se, dentre outros fatores, à valorização do câmbio, com aumento da competição de importações no país.

Além da Buettner, outras três empresas de Brusque do setor têxtil entraram, entre 2011 e início de 2012, com pedido de recuperação judicial na Justiça: a Renaux, a Schlösser e a Jovitex.

Nos últimos dias, Marchewsky ainda acompanhava o andamento das atividades, mas não mais como presidente ou membro do conselho, pois legalmente deixou tais cargos. Gilson Sgrott, administrador da massa falida, explicou que, a partir da falência, Marchewsky passou a poder ter apenas função de fiscalizador das atividades, através de documentos e relatórios de atividades. Ele não mais possui uma atuação empresarial.

Sgrott, que assumiu as operações do dia a dia, tem dado continuidade às atividades e está mantendo o quadro de funcionários. Ele diz que segue a decisão judicial que decretou a falência da empresa e determinou, mesmo assim, a manutenção das operações. Em comunicado ao mercado, ontem, assinado pelo Diretor de Relações com Investidores, Fabrício Colzani, a Buettner salientou que “todos os objetivos traçados seguem em execução normal, notadamente em suas operações de compra, venda, faturamento, contratação de funcionários, entre outros”.

A Buettner estava em processo de recuperação judicial desde maio de 2011. No último dia 28, esse quadro mudou, quando a juíza Ana Vera Truccolo, da Comarca de Brusque (SC), decretou sua falência. A juíza entendeu que a Assembleia Geral de Credores, que votou a favor recuperação judicial, cometeu um erro ao não computar votos de debenturistas (a maioria de fundos de pensão) da Buettner. Esses credores, que possuem garantia real (máquinas e prédios), segundo a juíza, teriam que ter seus votos validados e não ser desconsiderados como ocorreu. Na semana passada o TJ-SC não suspendeu a decisão de Ana Vera, não atendendo, portanto, a um pedido de liminar dos administradores da Buettner.

De acordo com o advogado da Buettner, Thomas Müller, os votos dos debenturistas não foram considerados porque eles têm garantia real e, por entender que a Lei de Falências determina que os credores detentores de garantia e que não teriam sua forma de pagamento alterada não votariam, a empresa não permitiu que os votos desses credores tivessem validade na assembleia que decidiu a recuperação. Os debenturistas, em sua maioria, eram contrários ao plano de recuperação judicial.

“Ajuizar um pedido de recuperação judicial não é um remédio simples, é um tratamento de choque. Há casos exitosos no país e outros não exitosos, mas a Buettner vinha se mostrando um caso exitoso”, defendeu Müller.

No período que antecedeu a recuperação judicial, a Buettner estava com cerca de 100 toneladas de produção ao mês. Em março deste ano, havia aumentado sua produção a 250 toneladas ao mês. A empresa, que ficou com cerca de 480 funcionários no início da recuperação, mais recentemente, chegou a 610 pessoas.

Segundo Marchewsky, nos últimos meses, elevou-se o número de clientes ativos. Antes da recuperação, esse volume era de 3,8 mil. Neste ano, passou a 5,1 mil.

“A decisão da falência só favorece os credores debenturistas, mas não leva em conta os demais”, disse Marchewsky.

Apesar de alguns avanços, neste mês a Buettner ainda operava com 40% de capacidade ociosa. Segundo Marchewsky, a empresa não estava gerando lucro final, mas disse, sem revelar valores, que já se observava, nos meses mais recentes, a geração de lucro operacional.

Após a aprovação da recuperação, a empresa passou a operar com pagamentos de insumos à vista e com prazo dado por alguns fornecedores.

A recuperação judicial veio em meio a um cenário de alta de preços do algodão, que agravou os problemas da Buettner, que há anos vinha apresentando prejuízos. De janeiro até setembro de 2011, últimos dados disponíveis na Bovespa, ela havia registrado um prejuízo de R$ 99,6 milhões e estava com patrimônio líquido negativo em R$ 24,4 milhões.

A dívida da Buettner com credores, segundo o plano de recuperação, somava R$ 140 milhões, para ser pago em até cinco anos, sendo que os primeiros pagamentos seriam feitos a partir dos primeiros lucros. A maior parte da dívida era com factorings e fornecedores de insumos. A dívida com debenturistas é de cerca de R$ 10 milhões.

O presidente da Celos – fundação de seguridade social da Celesc e uma das debenturistas da Buettner -, Milton Garcia, disse apenas que “a chance que os debenturistas tinham de recuperar algo era pela falência”. Por isso, optou-se por entrar com um processo judicial. Ele explicou que algumas propostas foram feitas pela Buettner aos debenturistas ainda no fim do ano passado, mas não atendiam aos interesses dos credores.

A acionista majoritária da Buettner é a empresa Erpa, administração de bens e participações, que detém 65% das ações ordinárias (ON).

Fonte: Valor Econômico

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