Escape do dragão no supermercado

Na semana passada, três indicadores de inflação foram divulgados: o Índice Geral de Preços Disponibilidade Interna (IGP-DI), com alta de 1,89% em junho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com variação de 0,74%, e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a alta dos preços para as camadas de renda mais baixa da população, que registrou alta de 0,91% em junho. Em comum, todos eles têm o grupo alimentos como principal vilão dos preços altos, o que já assusta economistas e cidadãos comuns. Em um país com histórico de inflação muito elevada (4.853% entre março de 1989 e março de 1990), um sentimento de apreensão pode até ser natural. O medo das pessoas é pensar que talvez seja preciso novamente correr ao supermercado logo depois de receber o salário, para conseguir comprar o maior número possível de produtos antes de os preços das mercadorias subirem ainda mais.


Mas esse sentimento pode ser descartado. Embora anualizada a inflação esteja em torno de 6% pelo índice oficial (IPCA, que serve de base para o sistema de metas adotado pelo governo) e em torno de 12% pelos IGPs, está longe de disparar descontroladamente, como ocorreu no passado. Portanto, não é o momento de estocar produtos em casa, afirmam especialistas em acompanhamento de preços.


Freqüência menor


O que os economistas recomendam é que os consumidores reduzam o número de idas mensais ao mercado, pesquisem preços e, se possível, substituam os alimentos mais caros por similares com preços mais baixos. “O hábito de ir uma vez por mês ao supermercado pode ser retomado sem grandes prejuízos para a dinâmica da família. É possível deixar para comprar apenas os perecíveis semanalmente. Mas estocar não é vantagem. É preciso lembrar que, se todos fizerem isso, vai faltar produtos, o varejo vai fazer reajustes e, conseqüentemente, está dada a ‘retroalimentação’ da inflação”, diz o economista especializado em finanças pessoais e professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Rafael Paschoarelli.


O problema, diz ele, é que mudar o hábito da estocagem é difícil para pessoas que viveram o auge da superinflação no Brasil. “Tornou-se cultural, afinal, ‘gato escaldado tem medo de água fria’. Apenas uma nova geração poderá mudar isso.” A funcionária pública aposentada Zaíra Ferreira de Aguiar é uma das que não conseguiu se livrar do comportamento. Na verdade, nem tentou. Ela adora ir ao supermercado, faz isso pelo menos três vezes por semana e sempre compra mais do que precisa. Zaíra mora com a filha e com o genro, mas gasta o equivalente a uma família muito maior e não percebe. “Ganho uma cesta básica da minha outra filha, que não mora comigo, gasto R$ 550 do vale-alimentação da que mora comigo e, de vez em quando, ainda tenho despesas no cartão de crédito”, conta.


A saga dos folhetos


A aposentada também tem outro hábito que os especialistas em economia costumam não defender. Ela vai de mercado em mercado atrás das ofertas dos folhetos promocionais. “Compro muito e estoco para não perder oportunidades de bons preços quando vejo nos folhetos. Se não fizesse isso, com certeza gastaria muito mais em alimentação e produtos de limpeza do que gasto atualmente.”


Ela acredita que o gasto com a gasolina do carro é menor do que a diferença de preços que encontra indo atrás das ofertas. “Na semana passada, o quilo do peito de peru estava a R$ 24,90 em um supermercado e a R$ 14, em oferta, no outro. Economizei R$ 5 comprando meio quilo”, afirma.


O economista Paschoarelli não concorda com a aposentada: se ela somar todas as idas mensais aos supermercados, o gasto de gasolina e de tempo não vai compensar. Mas ele reconhece que Zaíra e muitos outros consumidores fazem isso mais por diversão do que por vantagem econômica. “De qualquer forma, em época que a inflação está voltando, é bom saber quanto custa cada produto”, afirma.


Em relação à recomendação de substituição de alimentos por outros com mesmo valor nutricional, o problema é cultural e também educacional. Além de ser difícil mudar os hábitos alimentares de uma família, os que mais precisam fazer essa substituição são os mais pobres e que, portanto, têm menos informação a respeito de nutrição.


Substituição ajuda


De acordo com o índice de Preços ao Consumidor Classe 1 (IPC-C1), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o grupo alimentação representou 17,01% da renda de uma família que ganhou entre um e 2,5 salários mínimos em junho. E os itens que mais pesaram nessa balança nos últimos 12 meses foram justamente os mais consumidos pelos brasileiros: arroz branco, cuja alta dos preços acelerou de 26,03% em maio para 45,78% em junho, feijão carioquinha (de 119,31% para 137,51%), batata inglesa (2,32% para 19,39%) e carnes bovinas (32,87% para 44,13%).


“Para algumas famílias, os gastos com alimentação chegam a representar 40% da renda e são essas que não conseguem comprar nada além dos básicos e não sabem substituir feijão por lentilha ou ervilha e o arroz por batata”, diz Paschoarelli.


Importados


A substituição dos alimentos nacionais por importados, citada por alguns como uma opção por causa do dólar desvalorizado, não é válida. Isso porque não são todos os produtos importados que são negociados na moeda americana – muitos vêm da Europa e são comprados em euro. “A libra e o euro estão em alta em relação ao dólar, assim como ocorre com o real. Então, não conseguimos comprar os itens mais baratos. Além disso, muitos produtos subiram sob influência do aumento dos preços das matérias-primas”, explica o importador de alimentos e membro da Associação Brasileira de Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas (ABBA) Sydney Bratt. Como exemplo, ele cita os produtos árabes: o gergelim subiu 100% em dois meses.


A compensação ocorre apenas em alimentos comprados em dólar. Nesse caso, a redução em um período de 12 meses varia entre 10% e 15% dependendo do alimento, afirma Bratt. O problema é que mesmo essa queda deve ser compensada pela alta dos preços de várias matérias-primas, como trigo e cacau, no segundo semestre. “O consumidor também vai sentir o reajuste nos preços dos importados”, declara.


Outras commodities internacionais, como o petróleo, também devem ter influência negativa sobre os preços dos itens alimentares até o fim do ano. “Mas não acredito em alta generalizada. O preço do arroz e o feijão, por exemplo, deve cair a partir de agosto, com o fim do período de entressafra”, afirma o professor e vice-diretor de economia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) Luiz Alberto Machado.

Fonte: Audi Factor

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