Fraude era ‘evidente’ na Olympus, diz KPMG

Por Debra Mao | Bloomberg, de Hong Kong

O presidente mundial da KPMG International, Michael Andrew, disse que ficou evidente a prática de fraude na Olympus e que sua firma cumpriu todas as obrigações legais para repassar informações relativas à aquisição do Gyrus Group pela Olympus em 2008, antes de ter sido substituída como auditoria da fabricante de câmeras.

“Fomos dispensados por termos cumprido nossa obrigação”, disse Andrew aos jornalistas sexta-feira no Clube dos Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong. “Para mim está bem evidente que houve fraude muito significativa, e com a cumplicidade de um grande número de pessoas.”

As conclusões oficiais sobre as práticas contábeis da Olympus resultarão de investigações das autoridades japonesas, disse ele. A Olympus, com sede em Tóquio, está aguardando o relatório de um grupo especial de fora da empresa, disse seu porta-voz Yasutoshi Fujjiwara, em resposta à declaração de Andrew.

Andrew disse também que um conflito entre autoridades reguladoras dos Estados Unidos e da China mostrou a necessidade de adoção de normas mundiais e criticou as propostas da União Europeia de imposição de mais controles sobre o grupo de empresas de auditoria conhecido como as “Quatro Grandes”, do qual a KPMG faz parte, como o de obrigá-las a compartilhar trabalhos com suas concorrentes de menor porte.

Falando sobre “Fraude, Crises Financeiras e o Futuro das Quatro Grandes”, Andrew disse estar chocado pela interferência de ordem política e regulatória vivenciada pela KPMG em sua auditoria relativa ao endividamento da Grécia e ressaltou a importância da instauração de padrões mundiais.

A crise financeira de 2008 foi o resultado do fracasso dos modelos de negócios e da supervisão prudencial, disse ele, considerando “ingênuas” as propostas da UE de impedir que as firmas com determinada fatia de mercado prestem serviços alheios à área de auditoria aos clientes e como equivocadas as propostas em favor da rotatividade obrigatória das firmas.

A Comissão Europeia deverá restringir a oferta, pelas Quatro Grandes (KPMG, PricewaterhouseCoopers, Deloitte & Touche e Ernst & Young), de serviços de consultoria, segundo versão preliminar das propostas do braço executivo da UE obtida pela Bloomberg.

As propostas “vão enfrentar os pontos fracos identificados, ao assegurar a independência e uma sólida supervisão das auditorias e ao facilitar a geração de mais capacidade na faixa mais elevada do mercado”, disse a comissão em seu site na semana passada.

Sobre a China, onde a KPMG tem dez mil funcionários, Andrew disse que a empresa está se empenhando em aumentar seu potencial de prestação de serviços após os recentes problemas de auditoria observados em algumas empresas daquele país. “Ainda encaramos a China como uma significativa área de grande potencial de crescimento”, disse Andrew, que se mudou para Hong Kong após sua nomeação, neste ano.

Ele disse prever que o Public Company Accounting Oversight Board (Conselho de Fiscalização da Contabilidade das Companhias de Capital Aberto) dos Estados Unidos (PCAOB, pelas iniciais em inglês) e as autoridades reguladoras chinesas acabarão concordando em realizar vistorias conjuntas.

Altos funcionários da PCAOB e da Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão regulador do mercado americano) foram à China em julho para discutir a possibilidade de vistorias conjuntas. Uma reunião de aprofundamento marcada nos EUA foi cancelada pelos chineses no mês passado e não foi agendada para outra data.

A SEC disse em setembro que protocolou uma ação de fiscalização contra a Deloitte Touche Tohmatsu CPA, com sede em Xangai, por não ter apresentado documentos referentes à investigação da Longtop Financial Technologies depois de intimações, em maio. A Longtop disse naquele mês que a Deloitte saiu devido a erros nos registros financeiros da empresa.

A KPMG comprou o escritório da Arthur Andersen no Japão depois do colapso desta firma, em 2002, após os problemas contábeis da americana Enron. A KPMG herdou clientes como a Olympus, onde continuou como auditora até o fim de 2009.

O braço de auditoria da KPMG com sede em Cardiff, no País de Gales, sinalizou preocupações em torno da avaliação das ações preferenciais concedidas aos assessores da Olympus no negócio com a Gyrus, em 2008, e disse que não recebeu informações suficientes para confirmar que os beneficiários das ações não eram partes envolvidas.

O ex-presidente da Olympus Michael Woodford foi a público diante das perguntas em torno da possibilidade de ele ter captado mais de US$ 687 milhões em honorários de assessoria na aquisição da empresa de equipamentos médicos, bem como sobre baixas contábeis em participações em três outras empresas adquiridas. A Olympus disse posteriormente que o dinheiro pode ter sido redirecionado para a empresa via fundos “offshore” para ajudar a anular prejuízos com investimentos em valores mobiliários que remontam à década de 1990. (Colaboraram Stanley James, de Hong Kong, e Yuki Yamaguchi, de Tóquio)

Fonte: Valor Econômico

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