Guerra declarada

Por Fernando Torres e Marina Falcão | De São Paulo

O rodízio obrigatório de auditoria das companhias abertas será retomado no ano que vem. Mas a disputa entre as empresas por novos clientes já está a todo vapor. Dos R$ 366,9 milhões pagos em 2010 pelas 200 maiores companhias abertas por serviços de auditoria, R$ 175 milhões estão em jogo na rotação de 2012, conforme levantamento exclusivo feito pelo Valor.

Da parcela restante dos honorários, R$ 85,4 milhões se referem a empresas que estão há menos de cinco anos com o mesmo auditor e R$ 106,8 milhões são de instituições financeiras, que não são obrigadas a seguir o rodízio obrigatório, ainda que algumas, com destaque para o Bradesco, tenham trocado de prestador de serviço voluntariamente.

Em termos de clientes – e não de faturamento -, 65% das 200 empresas do levantamento terão de trocar de auditor até março de 2012. O mesmo percentual pode ser extrapolado para o universo completo das cerca de 600 empresas com registro de companhia aberta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo fontes do setor.

A realidade é que, embora as grandes firmas responsáveis pela checagem dos balanços reclamem em coro da determinação da CVM que obriga as empresas não financeiras de capital aberto a trocar de auditor a cada cinco anos, elas não brincam em serviço quando começa o período de rodízio. “Faz parte do jogo e nós vamos jogar”, disse Charles Krieck, sócio-líder da área de auditoria da KPMG.

Nas últimas semanas, cerca de 20 empresas enviaram comunicados ao mercado informando sobre troca de auditor e citaram o rodízio como motivo. Outras dezenas já encerraram o processo de seleção, mas ainda não tornaram a escolha pública.

Uma peso pesado que já escolheu novo auditor, mas não divulgou a decisão é a Petrobras, que tem o terceiro maior honorário do mercado brasileiro, atrás apenas de Itaú Unibanco e Bradesco. A estatal de petróleo não confirma, mas o Valor apurou com três fontes que a PricewaterhouseCoopers (PwC) vai assumir o lugar da KPMG. O lance vencedor ficou em cerca de R$ 60 milhões por três anos de auditoria, ou menos da metade do que Deloitte e Ernst & Young Terco (EYT) pediram para prestar o mesmo serviço. Em relação ao contrato anterior, em que a KPMG cobrou R$ 66 milhões pelo período de três anos, o desconto foi de 10%.

Com um quantidade enorme de empresas mudando de auditor ao mesmo tempo, as quatro grandes de auditoria – PwC, Deloitte, KPMG e EYT – acabam centrando esforços nas contas mais relevantes, que são também as de maior visibilidade.

Até agora, dos R$ 175 milhões que vão trocar de mão no ano que vem, 30% já têm destino definido. Estão entre aquelas que já escolheram novo auditor, além da Petrobras, a Telefônica Brasil (resultado da fusão de Vivo e Telesp), a empresa de alimentos BRF- Brasil Foods, a empresa química Ultrapar, a CPFL Energia, a seguradora Porto Seguro, a empresa de softwares Totvs e a dona de shopping centers Multiplan.

No grupo das dez maiores contas em disputa identificadas pelo Valor, Gerdau e Pão de Açúcar informaram que ainda não concluíram o processo de seleção. A TAM disse que não tinha porta-voz para comentar o assunto e a Embraer não respondeu.

A Oi não foi incluída na lista que aparece no quadro acima porque apenas a Brasil Telecom precisa necessariamente trocar de auditor por conta do rodízio. Mas talvez o grupo toda faça a mudança. Procurada, a empresa não se manifestou.

Outra conta disputada é a do chamado “Grupo X”. Embora apenas algumas companhias controladas por Eike Batista tenham completado cinco anos de existência com os balanços checados pela KPMG, a decisão foi pela escolha de um novo prestador de serviço para todo o grupo.

José Domingos do Prado, sócio-líder de auditoria da Deloitte, diz que a empresa selecionou 15 grandes empresas como alvo, das quais 10 concluíram o processo. “Em um caso tivemos que declinar por independência, em três perdemos e até agora conseguimos seis desses clientes, sendo que dois dos resultados já se tornaram públicos”, disse ele, referindo-se às contas da CPFL e da Ultrapar. “Já tomamos champanhe internamente.”

Além de disputar as grandes, a Deloitte tem também uma estratégia setorial. “No último rodízio perdemos muito no setor elétrico, em que tínhamos um domínio histórico. Mas mantivemos e equipe intacta, trabalhando na área de consultoria, e agora pretendemos voltar”, disse Prado, acrescentando que a empresa quer ganhar mercado também na construção civil.

Henrique Luz, sócio de auditoria da PwC, disse que a firma já conseguiu cerca de 30 clientes, sendo 12 de grande porte. “Quem teve que doar sua carteira de forma impositiva em 2004 tem muito mais condições de reaver clientes agora.” Segundo ele, na época do primeiro rodízio, sua firma era líder de mercado, com 32% de participação. Hoje, em clientes de capital aberto, está na quarta posição

Segundo um levantamento da KPMG, 380 companhias abertas terão que trocar de firma em 2012. Desse total, 86 são suas clientes.

Para repor aquelas que irão para a concorrência, a KPMG mapeou 290 empresas. “Montamos um time separado e alocamos a discussão da rotação para sócios que estão cuidando de uma lista de companhias definida por setor”, explicou Krieck.

A intensidade da competição por preço divide opiniões.

Deloitte e PwC apostam em um mercado mais comportado do que no último rodízio, enquanto a KPMG diz que a disputa nesse quesito está bastante acirrada e a Ernst & Young Terco prevê uma queda “não desprezível” na média dos honorários. “É isso que acontece na Itália, onde o rodízio ocorre a cada nove anos. Lá, a cada três anos as empresas também são obrigadas a abrir uma nova concorrência e os preços caem 10%”, disse Idésio Coelho, sócio da EYT.

Como os recursos são limitados, a Ernst & Young está focando empresas com boa projeção e boas práticas de governança.

Mas a principal estratégia da firma é apresentar propostas a companhias de setores em que têm experiência reconhecida. “Estamos rodando Suzano. A ideia é tentar as outras companhias abertas desse segmento”, exemplifica Coelho. Outros focos da EYT, segundo ele, são as mineradoras, as concessionárias e algumas construtoras.

Fonte: Valor Econômico

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