KPMG faz da Ásia seu diferencial para ganhar espaço das rivais

Por Adam Jones | Financial Times, de Londres

Em um hotel no aeroporto londrino de Heathrow, Michael Andrew gaba-se de como é fácil deixar sua mesa de trabalho e pousar em casa, em Hong Kong. “Eu saio do escritório e me asseguram que estarei sentado no avião depois de 45 minutos”, diz.

O novo presidente da KPMG International não está tentando esfregar sal nas feridas dos atribulados passageiros aéreos no Reino Unido e nos EUA. Em vez disso, o australiano de 55 anos está explicando por que ele se tornou, recentemente, o primeiro presidente que comanda da Ásia uma rede mundial de auditoria contábil.

A malha de transportes de Hong Kong – acesso ferroviário rápido ao aeroporto, o leque de voos internacionais diretos – é um atrativo óbvio. Líderes empresariais continuamente visitam a cidade-Estado, acrescenta ele: “Todas as pessoas com quem eu preciso me reunir têm de passar por aqui para vender seu peixe.”

Mas, acima de tudo, Andrew quer demonstrar o quanto são importantes países como a China, Índia e Rússia para o futuro da KPMG, cujo faturamento anual mais recente, de US$ 20,6 bilhões, fez dela a menor das “Quatro Grandes” firmas de auditoria e consultoria.

Os comandantes das três maiores rivais da KPMG – PwC, Deloitte e Ernst & Young – estão, todos, em Nova York ou Londres: “Nós estamos tentando dizer que somos uma empresa muito mais equilibrada, em termos mundiais.”
Num setor conhecido por sua homogeneidade, essa é uma peça memorável de marketing de marca, embora mascare o fato de que contadores de todos os matizes vêm se acotovelando, há anos, em mercados emergentes, na busca de crescimento mais rápido.

A escolha certamente reflete a carreira do próprio Andrew. No início de 1990, esse especialista tributário ajudou a estabelecer KPMG na Europa Oriental e formulou sua primeira estratégia para a região Ásia-Pacífico. “Acho que a Ásia não estava nas telas dos radares de ninguém, naquele momento”, diz ele, À época, ele presidia a KPMG na Austrália e na região Ásia-Pacífico, antes de, em maio, receber aprovação para comandá-la em âmbito mundial, sucedendo Timothy Flynn, um americano.

Mas dias antes de Andrew assumir seu novo posto, no início deste mês, o acerto em sediar a companhia na China pareceu menos sólido. A despeito de todas as oportunidades econômicas no Oriente, as ameaças à KPMG estão se acumulando no Ocidente.

No mês passado, veio à tona que a Comissão Europeia está preparando novas e duras regras para tornar as auditorias mais independentes de seus clientes. Bruxelas está “cutucando” as firmas de auditoria supostamente por elas não terem conseguido alertar os investidores para o colapso do setor bancário, que começou em 2007.

Mais notavelmente, Bruxelas está flertando com a ideia de proibir as firmas de auditoria de prestar serviços extras de consultoria para seus clientes – por exemplo, em tributação -, ao mesmo tempo em autenticam sua contabilidade. Bruxelas poderá até mesmo obrigar grandes redes de auditoria a se dividir em firmas independentes de auditoria e de consultoria.

No Reino Unido, por outro lado, as agências regulamentadoras de concorrência estão investigando o predomínio das Quatro Grandes no mercado de auditoria. A regulamentação está sendo apertada também nos EUA.

Qualificando a posição da Comissão Europeia como uma “surpresa total”, Andrews insiste em que a KPMG manterá juntas suas atividades de auditoria e de consultoria, mesmo que isso signifique abandonar oprtunidades de trabalho. Não é de surpreeender que ele defenda mudanças mais superficiais, como fazer com que agências regulamentadoras e auditorias conversem mais entre si.

Ele nega que as quatro grandes estejam pagando por sua recusa arrogante a fazer concessões às agências competentes: “Eu não acho que haja arrogância. Acho que estamos muito abertos a discussões em torno de mudanças.”

Mas seu apoio, mesmo a pequenas reformas, pode parecer relutante. Ele diz que os critérios de divulgação e transparência nos relatórios de auditoria podem ser melhorados, mas Andrews é bastante seletivo sobre quais informações adicionais são necessárias: “Nós só não queremos algum modelo repleto de ‘disclaimers’.”

Na mesma veia, um eventual mea culpa relacionada à crise financeira, que vitimou, entre outras, a New Century Financial, a Countrywide Financial e a HBOS, todas auditadas pela KPMG, limita-se à observação de que a KPMG, como outras auditorias, poderia ter feito mais para alertar as pessoas para níveis perigosos de endividamento.

O passatempo de Andrew – a criação de cavalos de corrida – sugere que ele é mais descontraído do que o estereótipo dos contadores, embora três de seus cavalos sejam denominados Discretion (livre arbítrio), Tactfully (com tato) e Chatham House, em referência ao think-tank britânico onde todos têm liberdade de expressão total mantendo fontes sob sigilo. Mas o próprio Andrews certamente mostra-se disposto a fazer comentários incisivos.

Ele minimiza o risco de uma das Quatro Grandes sofrer um colapso, nos moldes do ocorreu com a Arthur Andersen, auditoria da Enron. Esse cenário preocupa alguns fiscais de agências regulamentadoras, devido ao risco que poderá criar para a confiança do mercado.

Após o caso Enron, a KPMG chegou particularmente perto do desastre, ao se envolver em um escândalo de evasão tributária, nos EUA, que resultou em multa e outras penalidades num total de US$ 456 milhões, além de aceitar, em 2005, um acordo estipulando o arquivamento de ações penais sujeito ao cumprimento das determinações da agência fiscalizadora.

Mas Andrew acha improvável que uma grande agência fiscalizadora assuma o risco de um colapso, indo um passo além e suspendendo uma das quatro grandes em caso de conduta imprópria grave. “Seria difícil entender como uma agência fiscalizadora seria capaz de permitir efetivamente que isso ocorresse.”

Comenta-se também que a China poderia eventualmente diminuir o nervosismo em torno de concentração do mercado de auditoria, mediante a constituição de um quinto participante mundial com raízes na economia chinesa. Em linhas gerais, Andrew concorda.

Contudo, as recentes acusações de fraude contra empresas chinesas negociadas em bolsas no exterior mancharam a reputação da contabilidade chinesa e ele acredita que pode ser cedo demais para a China constituir um grande nome internacional no setor.

“A China está numa viagem. Levará, ainda, muito tempo para que os chineses compreendam plenamente quais são as exigências dos mercados mundiais de capital e dos investidores mundiais e das agências fiscalizadoras mundiais”, diz ele.

Nesse meio tempo, a KPMG é uma das empresas de auditoria apanhadas num impasse entre os EUA e a China, envolvendo a recusa chinesa em permitir que fiscais americanos inspecionem o trabalho de auditores na China.

Perguntado sobre se os dois campos estão propensos a chegar a uma solução em breve, o longo suspiro de Andrew sugere pouca esperança. “Acho que é um trabalho em andamento”, conjectura ele. (Tradução de Sergio Blum)

Fonte: Valor Econômico

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