Nuvens negras se formam sobre a economia chinesa

O fantasma de uma crise bancária começa a perambular pela economia chinesa e a pôr em dúvida a capacidade do governo do país de reagir a um agravamento da crise na zona do euro e a uma retração prolongada de EUA e Europa. Há um desarranjo financeiro crescente, imperceptível para quem só olha as sempre surpreendentes estatísticas de crescimento. O Conselho de Estado reagiu ontem com um pacote de ajuda às pequenas empresas, que empregam 80% da força de trabalho do país, agora vítimas de golpes vindos de três direções: a desaceleração das exportações, o aperto d o crédito bancário e o alto custo de dívidas contraídas no mercado informal de dinheiro. Os três fatores se alimentam e juntos podem nutrir uma séria crise financeira, capaz de reduzir significativamente a médio prazo o crescimento econômico da China.

As exportações chinesas diminuíram de velocidade em setembro pelo segundo mês consecutivo, movimento acompanhado pelas importações. As vendas ao exterior ainda estão velozes, 17,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior, mas a tendência diante de um recuo das atividades econômicas na Europa e EUA é de mais desaceleração.

Os efeitos disso, que já estão sendo sentidos por um batalhão de empresas exportadoras chinesas, foram apontados pelo relatório global de estabilidade financeira do Fundo Monetário Internacional e em um panorama econômico regional da Ásia e Pacífico, divulgado ontem. “Uma queda acentuada das exportações da China afetaria negativamente” os investimentos nos setores que produzem bens transacionáveis com o exterior. “Menor crescimento e piora das condições das empresas exportadoras elevariam a quantidade de empréstimos não pagos dos bancos chineses e os levariam a apertar significativamente o crédito”, afirma o estudo. “Um repentino e amplo aperto no crédito poderia disparar uma correção no mercado imobiliário, afetando adversamente” as empresas de aço, cimento, material de construção etc.

Boa parte disso já está ocorrendo e não necessariamente nessa cronologia. A inundação de dinheiro causada pela política de estímulos para enfrentar a crise de 2008 levou ao aparecimento de várias bolhas na China, das quais a mais vistosa foi a imobiliária. Só os empréstimos domésticos somaram em 2010 o equivalente a 173% do PIB, algo como US$ 11 trilhões. A economia deu sinais de superaquecimento com uma inflação acima de 6%, a maior em três anos, que obrigou o governo a apertar o crédito. Juros e requerimentos sobre reservas bancárias aumentaram seguidas vezes, dificultando e encarecendo empréstimos formais.

A bolha imobiliária começou a desinchar. As vendas de imóveis em 20 cidades caíram 32% em 12 meses e os preços de residências começaram a recuar. O resultado é que os grandes incorporadores imobiliários estão perto da lona. O crédito interno foi severamente racionado para eles e está agora em seu menor nível em dois anos. A porta do lançamento de bônus no mercado externo, pela qual captaram US$ 10 bilhões em 2010, se fechou desde maio, ao mesmo tempo em que dispararam o custo dos swaps contra calote dessas empresas. Segundo a Bloomberg, 14 dos 15 incorporadores imobiliários mais endividados do mundo são chineses.

Sua demanda por dinheiro, e também a dos setores asfixiados pela diminuição do crédito, foi suprida por empréstimos de agiotas, de financeiras que reúnem capital de magnatas em busca de retorno maior, e mesmo de bancos estatais, mas que ficaram fora do balanço. Não é pouca coisa – US$ 1,9 trilhão, ou quase 20% do total do crédito do país. Ou ainda três vezes mais que o maior pacote de estímulo de 2008, de US$ 600 bilhões, ele próprio o maior do mundo.

O desfecho dessa situação é previsível. As garantias dos incorporadores em poder dos bancos são imóveis e terrenos que perdem valor e arruinarão os balanços bancários. Um relatório do Credit Suisse estima que as perdas para os bancos com calotes atinja 60% de seu capital – conta que inclui a inadimplência de empreendedores imobiliários e das demais empresas em dificuldades. Outras estimativas indicam que há pelo menos US$ 600 bilhões de créditos podres no sistema financeiro chinês – uma encrenca de proporções chinesas. Na pior das hipóteses, a China se desacelerará com mais força, ensombrecendo mais o futuro da economia global e do Brasil, do qual é o maior comprador de produtos primários.

Fonte: Valor Econômico

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