O BC sabe o quanto você tem no bolso

Dizem que o conteúdo da bolsa de uma mulher ou da carteira dos homens revela muito de sua personalidade. Se isso é verdade, o Banco Central poderia ser considerado uma espécie de vidente, pelo menos da vida financeira das pessoas. Você sabe quanto tem na sua carteira neste momento? Se são cerca de R$ 30 e você usa esse dinheiro para compras pequenas, como as de padaria, e opta pelos cartões de débito e crédito para contas maiores, o BC está certo. Esses são alguns dos hábitos financeiros da maioria da população brasileira, de acordo com as estatísticas de uso de moeda mais recentes da instituição.

Segundo Andre Antunes, gerente de tecnologia: “Quando preciso gastar, passo em um caixa eletrônico. Em breve o dinheiro de papel será coisa do passado”.

A utilização dos cartões é crescente, mas a população prefere comprar itens de pequeno valor com dinheiro vivo. Quando adquire produtos de até R$ 10, a opção de 97% dos entrevistados pelo BC é levar as notas no bolso. Índice que cai para 63% quando o total de compras atinge R$ 100.

A aposentada Jiselda Matos é um exemplo disso. “Não abro mão dos trocados, mas também não saio sem meus cartões. Cada produto tem uma forma certa de ser adquirido. Os mais em conta, em dinheiro ou cartão de débito. Os que apresentam preços mais altos, só com cartão de crédito.”

Sem dinheiro no bolso

Mas nas ruas do Centro de São Paulo – no meio da concentração do mercado financeiro – também é fácil encontrar pessoas com posições mais extremas. O gerente de tecnologia André Antunes conta que nunca tem dinheiro no bolso. Prefere dois cartões de crédito e um de débito. “Quando preciso gastar, passo em um caixa eletrônico. É mais seguro. Em breve o dinheiro de papel será coisa do passado”, afirma.

A teoria de Antunes tem fundamento. De acordo com o chefe do Departamento do Meio Circulante do Banco Central, João Sidney de Figueiredo Filho, nos anos 1980, a expectativa realmente era de que, no século 21, as notas e as moedas não circulariam mais – as transações seriam eletrônicas. Só que, na prática, isso ainda vai demorar muito para ocorrer. “O registro foi de que, de 1994 a 2007, o uso de moeda subiu dez vezes no País. O aumento do crédito e o crescimento da renda do trabalhador provocam essa alta no uso de dinheiro vivo”, explica.

Para Figueiredo Filho, porém, isso traz um problema. “Esse ambiente de estabilidade é uma oportunidade de negócio para falsários”, alerta.

A tecnologia dos bancos está longe de chegar a todos. A maior parte da população (77%) faz seus pagamentos mensais de contas e compras de produtos com dinheiro vivo. Os demais 23% usam outros meios: 11%, cartão de crédito; 8%, de débito. Apenas 3% optam pelo talão de cheques e 1%, pelo débito automático. O valor que cada um carrega aumentou. Em 2005, a média era de R$ 30,94 por consumidor. Em 2007, foi de R$ 31.

O chefe do Departamento do Meio Circulante do BC explica o porquê de, apesar do crescente investimento dos bancos em tecnologia, a maioria das pessoas ainda ter o hábito de comprar em dinheiro. “Em muitas regiões brasileiras os trabalhadores ainda não têm conta corrente e recebem salário em dinheiro, como no Nordeste, por exemplo, onde o índice de profissionais que se enquadram nessa situação chega a 70%.”

O plaqueiro Antonio Honório, que trabalha no Centro de São Paulo, enfrenta essa realidade. Ganha R$ 20 em espécie por dia, leva tudo para casa e, no dia seguinte, sai com metade do valor. “Gasto só para almoçar. No final da tarde, sempre restam R$ 3 no bolso.” Ele, porém, sonha com a inclusão bancária. “Queria ter cartão, todo mundo usa”, diz.

De acordo com Figueiredo Filho, do BC, o hábito de carregar dinheiro deve continuar, mas a tecnologia pode oferecer mais segurança. “Os bancos agilizam as operações. Dos 23% da população que preferem pagar as compras com outros meios, 45% pertencem às classes A e B. Quanto mais as pessoas tiverem acesso aos bancos, mais utilizarão a tecnologia”, afirma.

Moeda de R$ 2

Enquanto isso, o dinheiro em espécie continua mesmo em alta. O levantamento mostra que 64% das pessoas destinam até R$ 500 todo mês para pagar contas e produtos. Para melhorar o dia-a-dia desse consumidor, o Banco Central está estudando a possibilidade de criar a moeda de R$ 2, entre outras coisas. “Uma moeda dura até 30 anos; já a nota tem que ser substituída a cada ano”, afirma Figueiredo Filho.

O aposentado João da Cruz Parente aprova e não esconde sua preferência. Ele lembra uma passagem da Bíblia para explicar porque paga tudo à vista. “Quem pega emprestado fica escravo de quem empresta.” Parente diz que não parcela nem as compras feitas em lojas de departamento. “Só duas coisas podemos adquirir em algumas vezes: carro e imóvel. Com dinheiro na mão, o consumidor consegue desconto no preço”, ensina.

No outro extremo, a esteticista Tereza Habib afirma que coloca na bolsa só o “dinheiro do pão”. “É mais seguro”, diz.

Para o diretor da pós-graduação da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), Tharcísio Souza Santos, as pessoas ainda não estão acostumadas a trabalhar com as instituições financeiras – um mercado que tem muito a crescer no Brasil. “Na Europa, EUA e Japão, os cartões de crédito e débito são muito comuns. O caminho é bancarizar os menos favorecidos. É como o computador: há dez anos, só as classes A e B tinham. Hoje, quase todos têm.”

Fonte: Audi Factor

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