Olympus ocultou US$ 1,5 bilhão em perdas, diz relatório

Por Kana Inagaki e Phred Dvorak | The Wall Street Journal, de Tóquio

A Olympus ocultou US$ 1,5 bilhão em perdas com investimentos durante o mandato de três presidentes – perdas que envolveram uma rede de transações que cruzava o mundo, declarou uma comissão independente que investigou o assunto.

O relatório foi duro com a administração e o conselho da empresa, e sugeriu que “se busque a responsabilidade legal dos envolvidos”. Segundo concluiu a comissão, auditores externos “não funcionaram suficientemente”.

Mas, em consonância com o que a empresa afirmara no mês passado, a comissão declarou que a Olympus já contabilizou todos os ativos não lucrativos e que o inquérito de quatro semanas não revelou indícios de desvio de recursos ou envolvimento com o crime organizado. A comissão de seis membros, composta basicamente por advogados, disse ainda que seu poder de investigação era limitado.

“Embora acreditemos ter achado uma explicação para o ocorrido, não podemos dizer que temos detalhes sobre tudo”, disse o presidente da comissão, Tatsuo Kainaka, um ex-juiz da Suprema Corte japonesa, em entrevista à imprensa, na terça-feira.

A comissão, que foi nomeada pelo conselho da Olympus, é a primeira instância de inquérito a dar um parecer sobre o escândalo na fabricante japonesa de câmeras e equipamentos de diagnóstico médico, que no mês passado admitiu ter ocultado perdas.

A dimensão do escândalo numa empresa de primeira linha, bem como a relutância inicial da administração em investigar ou admitir qualquer irregularidade, fez do caso um teste da capacidade do Japão de policiar seus mercados e disciplinar malfeitores. A empresa ainda enfrenta investigações por parte de autoridades, incluindo a polícia japonesa e reguladores do mercado de valores mobiliários, o Federal Bureau of Investigation (FBI) nos Estados Unidos e o Serious Fraud Office do Reino Unido.

No relatório de 200 páginas, montado após entrevistas com executivos da Olympus e auditores externos, a comissão deu respostas a perguntas básicas sobre como e por que a Olympus ocultou as perdas, bem como quem foi o responsável, detalhando uma complexa série de transações iniciada em 1998.

O relatório identificou o ex-auditor interno Hideo Yamada e o ex-vice-presidente Hisashi Mori como as figuras centrais por trás da ocultação das perdas. A comissão disse que a operação foi aprovada por Tsuyoshi Kikukawa e seu antecessor, Masatoshi Kishimoto, enquanto cada um era presidente. Toshiro Shimoyama, que antecedeu Kishimoto no comando, foi notificado regularmente sobre as perdas ocultas depois de virar consultor da empresa, diz o relatório. Segundo a comissão, o plano era esconder perdas com investimentos – perdas que haviam crescido quando a bolha de ativos do Japão estourou, na década de 90.

“O núcleo da administração estava podre, o que contaminou outras partes ao seu redor”, declarou a comissão. “A situação foi um epítome da mentalidade do trabalhador japonês, no mau sentido”, numa alusão à cultura japonesa de lealdade para com a empresa.

Shimoyama disse em entrevista que o relatório estava “errado” e que não sabia que a empresa ocultara perdas. Segundo ele, sua memória sobre o ocorrido mais de uma década atrás era vaga.

Os outros executivos da Olympus mencionados no relatório não foram localizados para comentar a questão. A Olympus indicara anteriormente que Yamada, Mori e Kikukawa haviam tido papel central na ocultação das perdas e nenhum falara sobre o assunto anteriormente. Os três deixaram a empresa nas últimas semanas.

A Olympus afirmou que “leva muito a sério os resultados” da investigação e que “está considerando mais medidas fundamentais para restaurar a confiança”.

Num comunicado interno a funcionários da Olympus, ao qual “The Wall Street Journal” teve acesso, o presidente da empresa, Shuichi Takayama, frisou que o relatório não revelou evidências de desvio do dinheiro para o crime organizado, um tema “que vinha preocupando vocês”. Takayama disse que a Olympus responsabilizará os culpados de ocultar as perdas, ainda que não estejam mais na empresa.

Uma dúvida crucial é se a empresa será capaz de retificar demonstrações financeiras passadas e submetê-las ao crivo de auditores a tempo de declarar os resultados em 14 de dezembro. As ações da Olympus, que perderam mais de metade do valor desde que o escândalo irrompeu, em meados de outubro, serão retiradas da Bolsa de Tóquio se a empresa não cumprir o prazo. Ainda que cumpra, a Olympus pode ser expulsa da bolsa. Vai depender da escala de falsificação em seus documentos financeiros, disse a bolsa nesta terça.

Certos credores e investidores expressaram alívio pelo painel não ter achado ligação com o crime organizado ou mais passivos que não haviam sido contabilizados, o que poderia ter aumentado o risco de expulsão da empresa da bolsa.

“Vamos seguir com a empresa”, declarou David Herro, diretor de investimentos da Harris Associates, de Chicago. Com uma participação de cerca de 4%, a companhia é uma das maiores acionistas da Olympus.

A Olympus reiterou que vai retificar as demonstrações financeiras submetidas de 2007 a 2011 e que pretende divulgar os resultados na próxima semana, dentro dos prazos.

O ex-presidente da Olympus, Michael Woodford, que foi demitido em outubro depois de exigir uma investigação sobre várias aquisições suspeitas, disse em um comunicado ontem que o relatório mostrou “conduta ilegal em escala gigantesca” na empresa e que uma recuperação só poderia ocorrer se for liderada por executivos “sem manchas”. Ele pediu para a diretoria da empresa ser substituída e quer voltar à Olympus.

Fonte: Valor Econômico

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