Propostas de Bruxelas pegam as grandes empresas do setor no contrapé

Por Financial Times, de Londres e Bruxelas

Eles estão entre os lobistas mais silenciosamente eficientes do mundo. Raramente as “Big Four” são pegas por iniciativas reguladoras voltadas contra elas, e esse não parecia ser o caso de ontem quando as propostas de regulamentação circularam em Bruxelas, ameaçando derrubar todo o setor.

As propostas, que pegaram as firmas de contabilidade desavisadas, incluem a sugestão surpreendente de separação total dos negócios de auditoria das firmas de seus trabalhos de não auditoria. Elas também preveem uma série de outras restrições que incluem limites de tempo obrigatórios para os auditores trabalharem com uma única companhia.

Algumas iniciativas, como a rotatividade dos auditores, estão sendo ativamente consideradas em muitos países, inclusive nos Estados Unidos, mas outras, especialmente a ideia de isolar totalmente as práticas de auditoria, pegaram o setor desprevenido. Executivos importantes do setor repudiaram a portas fechadas a ideia de que tal revolução seja imposta, mas admitiram que ficaram abalados com o fato de ela ter aparecido na forma de proposta.

A ambição das propostas também convenceu alguns observadores em Bruxelas de que Michael Barnier, o comissário de mercados internos da União Europeia, está mirando alto para fortalecer sua posição de barganha nos próximos meses.

As propostas, as quais o “Financial Times” teve acesso, estão circulando na Comissão Europeia, que vai publicar uma proposta final em novembro.

A partir daí, ela vai enfrentar um desafio formidável para conseguir apoio dos Estados membros da União Europeia e do Parlamento Europeu.

Embora os bancos de investimentos estejam sendo amplamente apontados como responsáveis pela crise financeira recente, nesse período os auditores raramente estiveram numa posição secundária na lista de prioridades das autoridades reguladoras. As propostas da União Europeia marcam o mais novo estágio de um prolongado debate global, que já vinha acontecendo antes da crise financeira, sobre como os auditores deveriam operar.

Mais recentemente os reguladores aumentaram seu interesse, especialmente depois que a crise financeira revelou alguns casos que as autoridades americanas classificaram de “falta de ceticismo perturbadora” na análise das contas de clientes.

As autoridades reguladoras estão preocupadas há anos com os riscos de concentração entre as Big Four, que entre elas auditam quase todas as maiores companhias abertas do mundo. Depois do colapso da Arthur Andersen na esteira do escândalo contábil da Enron, as autoridades temem que um novo grande escândalo possa derrubar outra dessas firmas.

Jeremy Newman, presidente-executivo da BDO International, a quinta maior rede global do setor, disse ontem: “Do que entendi das propostas, estou preocupado com o alcance de algumas delas. Mas, sobre a perspectiva de que eles reconhecem que há um problema grave com a estrutura do mercado que precisa ser resolvido, isso em princípio é uma coisa boa”.

A BDO e seus concorrentes da chamada segunda divisão há muito tempo vêm tentando sacudir o mercado de auditoria, para que haja uma redução das barreiras de entrada.

Algumas das Big Four têm aceitado alguns de seus pedidos, como proibir o uso de cláusulas que determinam que apenas uma das Big Four pode ser usada em certos tipos de trabalho que não seja de auditoria.

A auditoria responde por cerca de um terço das receitas dos braços britânicos das Big Four – as maiores operações de suas redes europeias e as que publicam as descrições mais detalhadas das contabilidades das empresas. (JH e AB)

Fonte: Valor Econômico

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