Responsabilidade, sustentabilidade e a inexorabilidade dos números

Contabilidade é a língua dos negócios. Esta frase foi dita por Warren Buffett, em resposta à filha de um de seus parceiros nos negócios, com dúvidas sobre qual curso ela deveria fazer. Buffett deve saber o que está falando, afinal, é o investidor mais bem sucedido em todo mundo, um dos poucos que se manteve praticamente incólume na crise em que o sistema financeiro mundial submergiu ao final do ano passado.


Crise é sempre crise e, por mais que se fale nas oportunidades que esses momentos possibilitam. Diante dela, a gente treme. Afinal, a economia não é uma ciência exata e, por isso mesmo, nem sei bem ao certo porque tanta gente insiste em fazer previsões econômicas. A única certeza sobre a qual se pode tirar conclusões diz respeito aos números da economia. E, nesse caso, se ela é incerta, a contabilidade não mente. Se um investidor quiser conhecer uma empresa, o caminho mais curto é analisar o seu balanço, independente do contexto econômico em que se encontra o seu setor, o seu país, o mundo.


Embora a tendência seja ser pessimista quando o calo aperta nos momentos de crise, basta olhar para as informações contábeis para se obter uma visão realista sobre o futuro. Isso também serve para os períodos de euforia: um gestor eficiente será sempre realista e prudente no seu planejamento estratégico ou nas suas decisões de investimento.


A verdade é que, com crise ou sem crise, do ponto de vista da gestão, está ocorrendo uma enorme revolução na maneira de gerir as corporações. E esta verdade é também completamente válida quando tratamos de responsabilidade socioambiental e de sustentabilidade entre as empresas.


Os setores das empresas envolvidos com ações e políticas de responsabilidade e sustentabilidade estão, como todos os demais, sujeitos à regra básica das Ciências Contábeis, pela qual as contas de uma empresa só se mantêm quando há ao menos equilíbrio na relação de entradas e saídas de recursos de seu caixa. Quando esse equilíbrio é quebrado e o lado dos desembolsos pesa mais que as receitas a situação tende a tornar-se insustentável. Assim, para a companhia ser responsável e sustentável é essencial a prática da responsabilidade financeira e contábil.


Isso não quer dizer que as empresas devem abrir mão dos importantes ativos que são construídos para sua imagem a partir das ações de responsabilidade socioambiental e sustentável. O que exige-se em momentos de crise como o atual é a criatividade, a construção de soluções que sejam viáveis com o menor desembolso de recursos e o direcionamento de ações que gerem resultados reconhecidamente positivos para a sociedade e também para a organização.


Mesmo com eventuais cortes em rubricas desses segmentos, o trabalho não pode simplesmente parar, já que é certo que esta crise, como tantas outras, vai passar, e recomeçar o trabalho de consolidação de ações responsáveis e sustentáveis desde o zero não é recomendável.


Sem dúvida alguma, a contabilidade faz parte disso também. Nunca antes na história o contador teve tanto prestígio dentro de uma corporação. Na hora de tomar uma decisão, seja em relação a um investimento produtivo, ou para a adoção de medidas de preservação do ambiente, por exemplo, o bom gestor sempre terá ao seu lado um contabilista com informações saídas do forno.


É preciso, portanto, que empresas e agentes de mercado tenham em mente que a gestão responsável é essencial para superar uma conjuntura adversa. Mais uma vez recorro à lógica do padre Luca Paciolo, considerado o pai da contabilidade, segundo a qual uma empresa não pode viver de fantasia, mas precisa ser gerida a partir da verdade dos números, das referências do débito e do crédito, da aplicação e da origem do recurso.


Para emergir de um novo contexto mundial pós-crise financeira, o melhor é estar muito bem acompanhado. Mais do que nunca, é prudente valorizar o dinamismo, a criatividade, a responsabilidade, o pronto atendimento e, sobretudo, a solidariedade.


* Antoninho Marmo Trevisan é presidente da Trevisan Outsourcing, Escola de Negócios e Consultoria, do Conselho Consultivo da BDO Trevisan, da Academia Brasileira de Ciências Contábeis e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e Colunista de Plurale, escrevendo um artigo por mês.

Fonte: Revista Plurale

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