Saia do buraco!

Você não sabe como nem por que, mas de repente está lá, no fundo do buraco, com terra até o pescoço e prestes a ser engolido. A terra que cai são dívidas e mais dívidas e você nem consegue perceber como chegou a essa situação. Infelizmente é bastante comum as pessoas se endividarem mais do que poderiam. Mas sair do buraco não é tão complicado como se imagina.


Em primeiro lugar, como em qualquer momento de desespero, manter a calma é o mais importante. É preciso somar primeiro o valor de todas as dívidas da família, colocá-las detalhadamente no papel e analisar o risco de cada uma.


“Mais importante do que ver os juros das obrigações é saber qual o risco de cada uma. Por exemplo, se existe uma dívida de pensão alimentícia, é melhor pagá-la antes do cartão de crédito, mesmo que não tenha juros, porque o risco de ser preso é mais grave que o de ter o nome incluído no cadastro de inadimplentes”, ensina o economista e consultor financeiro pessoal Fabiano Calil. Riscos como prisão, perda do imóvel de moradia ou do automóvel devem ser priorizados.


Coloque no papel


Paralelamente, deve-se somar os valores de todas as dívidas. Quase ninguém faz isso e o montante parece muito fictício. Como na metáfora do buraco, é preciso saber quanto de terra ainda vai cair e quanto de capacidade de subir você tem. “Isso tudo tem que estar discriminado em um papel, pois torna mais fácil a visualização e a tomada de decisões”, afirma Calil, que está acostumado a lidar com pessoas em situações financeiras extremas.


De acordo com ele, um endividamento já é alto se compromete o patrimônio próprio ou o da família. Se superar o valor dos bens, torna-se um problema gravíssimo.


Depois de analisada sua situação, e caso não haja nenhum risco mais grave que os demais, é hora de priorizar dívidas que tenham juros mais altos, como o cartão de crédito e o cheque especial. Nesse caso, pode-se até pensar em adquirir um novo empréstimo, como pessoal ou consignado, para quitar os mais caros. O importante é não rolar a dívida simplesmente por rolar, mas fazer um “plano de escalada” para fora do buraco.


Reveja seu modo de vida


Quando o endividamento foge do controle apenas temporariamente – por uma situação de doença, desemprego ou outra eventualidade – normalmente, afirma Calil, as pessoas conseguem reorganizar a vida financeira em poucos meses. Mas se a dívida maior que o patrimônio é algo constante, é hora de reavaliar o modo de vida. É preciso ter consciência, porém, de que não basta fazer cortes supérfluos, que apenas causam estresse psicológico. O balanço de entrada e saída de capital da família deve ser totalmente repensado.


“Cortar a pizza do fim de semana só vai trazer infelicidade e terá pouco resultado prático. Talvez seja o caso de a família trocar o carro por um mais velho, ou ficar sem por um tempo. Infelicidade por infelicidade, é melhor que o resultado seja efetivo”, afirma o consultor. Mudar de bairro ou cortar a escola particular das crianças só deve ser cogitado em último caso.


“Ao analisar os endividados, vemos que, em média, 50% da renda familiar está comprometida com juros, financiamentos e empréstimos. Quer dizer, se simplesmente os cidadãos pararem de comprar a prazo e passarem a adquirir os bens à vista, quando têm dinheiro, parte grande do problema estará resolvida”, afirma o especialista.


Novos paradigmas


Mudar paradigmas da família é a recomendação também da consultora de finanças e autora do livro “Pare de cavar”, Joana Del Guercio. Usualmente, afirma ela, os devedores voltam a se endividar meses depois de saírem do buraco, por falta de cultura de poupança e economia. O importante, recomenda, é envolver os familiares no projeto de recuperação.


“Já vi gente tendo que vender imóvel e carro para acertar as contas, sendo que um ajuste a longo prazo dos hábitos seria suficiente para resolver o problema. Também já vi oficial de justiça chegar à casa da família para tirar as pessoas e a esposa nem saber que o marido devia algum dinheiro”, conta Joana.


Entre os primeiros cortes, ensina, é preciso tirar contas do débito automático porque, embora facilite a vida, o serviço não permite controle adequado. O dinheiro sai da conta e a pessoa nem percebe. Telefone também gera descontrole. Substitua a conta por um pré-pago, fixo ou móvel. E renegocie as dívidas, sempre.


Joana dá outra dica importante para quem está em dificuldades: “Enquanto pagar o mínimo do cartão de crédito, o banco não vai renegociar o montante inicial da dívida.”


Embora não seja agradável, é bom pensar em pedir um empréstimo para um parente, desde que haja um projeto sério de pagamento. “Acho até que os empréstimos em família têm que ter cobrança de juros, para o devedor sentir que precisa arcar com aquele valor. Mas eles podem ser menores que os dos bancos”, afirma Joana.


A boa notícia é que as dívidas dos brasileiros são consideradas de curto prazo para o mercado financeiro. Em média, de até três anos. Para o endividado esse período parece uma eternidade, mas uma escalada gradual da dívida é mais adequada que qualquer ação intempestiva, dizem os especialistas.

Fonte: Audi Factor

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