Sobrevivência de empresas na mira de auditor

Por Adam Jones | Do Financial Times, de Londres

Os auditores enfrentarão um começo de ano complicado na Europa, tendo que prever quais companhias ficarão sem recursos, em meio à volatilidade que ronda os negócios, e ao mesmo tempo assegurar que os ativos das companhias foram reduzidos para refletir o cenário econômico mais fraco.

Enquanto muitas empresas finalizam seus balanços anuais, as principais firmas de auditoria reconhecem que uma das questões mais desafiadoras que enfrentam é saber se uma companhia conseguirá acessar recursos suficientes para seguir com suas operações e atingir o conceito “entidade em marcha” – ou seja, com requisitos mínimos em termos de saúde financeira para se pressupor sua continuidade.

O modo como as companhias contabilizam as aquisições passadas também está no centro das atenções, em meio aos temores de que as premissas para o fluxo de caixa futuro que permearam os acordos podem ser muito otimistas no cenário atual.

Os reguladores estão observando de perto o modo como essas questões vêm sendo tratadas e já criticaram auditores por não serem tão céticos quanto o necessário em suas avaliações.

James Chalmers, sócio de auditoria da divisão inglesa da PwC, afirmou que a checagem da liquidez é prioridade. A avaliação de ativos vem em segundo lugar, com foco particular no ágio gerado em aquisições.

A avaliação desse tipo de ágio, chamado de “goodwill”, precisa ser testada em cenários de estresse para levar em conta o fato de que os lucros das empresas podem estagnar ou recuar, afirmou Chalmers. “Dedicamos atenção especial para tentar entender fluxos de caixa futuros prováveis”, disse.

John Griffith-Jones, presidente da KPMG Europa, disse que julgar se uma empresa é uma “entidade em marcha” é fundamental, acrescentando que também é crucial avaliar o possível impacto em uma companhia caso um cliente de peso dela esteja próximo da falência.

No setor de bancos, Griffith-Jones disse que a avaliação da carteira de crédito é outra questão importante. De acordo com ele, tem havido discussões para se chegar a uma divulgação mais uniforme acerca das provisões para inadimplência, bem como para a falta de rigor em apontar a existência de atrasos. O banco central da Inglaterra já alertou que essa prática pode mascarar perdas com empréstimos.

Os bancos e as seguradoras da Europa tiveram prejuízos bilionários com a dívida do governo grego nos últimos meses. Contudo, para o executivo, não serão necessárias novas baixas contábeis por conta de dívidas emitidas por outros países da zona do euro, “se não houver nenhum evento mais dramático”.

Martyn Jones, sócio da Deloitte, disse que a questão das “entidades em marcha” é relevante. Segundo ele, a Deloitte também está atenta a manobras fora do balanço e transações entre partes relacionadas, que podem encobrir perdas.

As atividades das companhias em mercados emergentes também merecem atenção, acrescentou o executivo, dado que o maior crescimento visto em países como a China pode implicar um risco maior de fraudes, como ativos fictícios.

Em dezembro, o Financial Reporting Review Panel, um regulador que monitora o conteúdo dos balanços anuais, disse que estava adicionando os varejistas de médio porte europeus entre os setores prioritários para revisão.

A decisão refletiu a tensão causada pela diminuição do ritmo de gastos dos consumidores. Os segmentos de propriedades comerciais e serviços de suporte também estão na mira do regulador.

Fonte: Valor Econômico

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