Como o Leão entrou na vida dos contribuintes

Um médico vestido de branco, sentado em um sofá, com a esposa ao lado, vê um leão andando de um lado para o outro da sala, inclusive na parede. A mulher não enxerga nada. Tem a consciência tranqüila. O filme publicitário, veiculado pela televisão em 1980, transmitia um recado da Secretaria da Receita Federal para médicos e dentistas que cobravam “um extra” para emitir recibos: “Se você não se comportar, o leão vai subir na parede”.


A peça foi uma das aproximadamente 30 produzidas pela DPZ para a Receita Federal, que, na época, iniciava seu processo de modernização, cruzando dados com auxílio da informática, como já ocorria em alguns países. O então secretário, Francisco Neves Dornelles, solicitou às agências de propaganda propostas para divulgar o programa do imposto de renda. Na DPZ, a tarefa foi entregue ao publicitário Neil Ferreira, hoje colunista do Diário do Comércio .


“Sonegava-se uma barbaridade, não se fiscalizava. Em minha visão, o leão representava a garantia de que o imposto seria cobrado”, afirma Ferreira. Com dificuldades para transmitir a idéia de que o contribuinte, mais cedo ou mais tarde, iria cruzar com o leão – que é forte, manso, mas não é bobo – Ferreira resolveu fazer um filme e apresentá-lo ao secretário da Receita.


Olho vivo – Nele, um felino carregando formulários da Declaração do Imposto de Renda na boca passeia calmamente por uma calçada. As pessoas se assustam. Uma mulher pede a todos que não se preocupem. E explica: quem preencher corretamente a declaração do Imposto de Renda não será atacado pelo animal. Segundo Ferreira, a mensagem dos filmes era clara: o leão é manso com o contribuinte que se “comporta” direito com a Receita Federal. A peça trazia outro “recado” implícito: daqui para a frente, o Leão – agora, com letra maiúscula – estará de olho em você.


Dornelles comprou a idéia. Foi um sucesso. Em dois dias, o leão era manchete dos jornais. Ao longo de dez anos, foram feitos cerca de 30 filmes. No dia da posse como secretário da Receita Federal, Osíris Lopes Filho, exibia uma gravata estampada com leões.


Até os dicionários Houaiss e Aurélio apresentam o seguinte significado para leão: órgão responsável pela arrecadação do imposto de renda. “É o primeiro personagem publicitário a ir para os dicionários”, comenta Ferreira. “É um símbolo forte, que deu certo. Mesmo após 18 anos sem veiculação de filmes, o Leão continua vivo.”

O publicitário lembra que, como dizem os norte-americanos, só há duas coisas certas na vida: a morte e o pagamento do Imposto de Renda. Isso não ocorre só no Brasil. “Mesmo quem acha que não recolhe imposto, o faz indiretamente. Até quem recebe o bolsa-família”, graceja o publicitário.

Fonte: Audi Factor

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